A alma da cidade

Para aproveitar ao máximo a criatividade, é necessário considerarmos os recursos da cidade de modo mais amplo e basearmo-nos na história dos lugares e na evolução da sua cultura. Levar a cultura em consideração ajuda a entender de onde um lugar vem, por que é que ele está como está e como pode criar o seu futuro, por meio do seu potencial. Esses recursos culturais são a matéria-prima da cidade e sua base de valores; os seus activos, substituindo o carvão, o aço ou o ouro. A criatividade é o método para explorar esses recursos e ajudá-los a crescer. (…) Esses recursos únicos estão embutidos na inventividade, nas habilidades e nos talentos das pessoas. Eles não são apenas “coisas”, como edifícios, mas também são motivações, símbolos, actividades e o reportório do conhecimento local, inserido no artesanato, produtos, serviços (..)
Charles Landry

Em 1960, Kevin Lynch na sua icónica obra ‘A Imagem da Cidade’, definia os elementos estruturais da imagem visual da cidade, determinantes na escola universal do urbanismo até aos dias de hoje.

Nesta ordem de elementos urbanos estruturais de Lynch, as vias surgem como os canais de circulação através dos quais os indivíduos transitam, como as ruas, avenidas, etc. Os limites dão forma às mudanças de espaços dentro do ambiente urbano e são muitas vezes elementos geográficos, como rios ou vales. Os bairros são áreas caracterizadas pelas suas extensões bidimensionais e atributos comuns sejam sociais, económicos, arquitectónicos, urbanísticos ou orográficos que os identificam. Os pontos nodais são os locais estratégicos da cidade, os seus focos irradiadores e que podem ser praças, cruzamentos, bifurcações ou convergências. Os marcos são os pontos de referência externos da cidade e que muitas vezes são símbolos da cidade como certas características topográficas (um monte, por exemplo) ou elementos construídos (uma torre, um restaurante, um ponto turístico…).

Lynch postula que estes cinco elementos são definidores da percepção que o cidadão tem do espaço urbano mas que é necessário, paralelamente, definir um ambiente urbano que não seja simplesmente bem organizado mas também poético e simbólico.

Na minha leitura da cidade e perspectiva pessoal, gosto de chamar a esta Imagem da Cidade de Lynch, de corpo da cidade. É a imagem tangível que o espaço urbano apresenta. É a infraestrutura que o materializa, que lhe dá corpo e forma. São os edifícios, as pedras, as ruas, os elementos visuais estruturais marcantes e até os elementos infraestruturais, escondidos debaixo das ruas e que são as artérias que irrigam e ao mesmo tempo drenam este corpo. 

Defendo no entanto que, quando o objecto é uma cidade completa, este corpo da cidade não existe sem uma alma que o anima. Uma cidade sem alma é um corpo inanimado, que existe mas que não subsiste. Que pode ser presente, mas não é passado nem futuro. Que pode ser a casa de milhares de vidas, mas que não tem vida para dar.

Esta alma da cidade é o seu património mas não o seu património material, que esse é corpo da cidade. Falamos aqui do património imaterial, muito particularmente do património cultural imaterial colectivo. A alma da cidade é o conjunto de manifestações criativas colectivas que faz do corpo da cidade um organismo vivo e, sobretudo, que lhe confere identidade. As tradições, saberes, actos públicos, eventos, expressões colectivas que quebram o simples decorrer do calendário anual, que rompem com a monotonia da vida diária, que, ao fim ao cabo, animam e dão cor e vida ao tal corpo da cidade. Enquanto o corpo da cidade é a materialidade urbana, a alma da cidade é imaterialidade urbana colectiva.

Charles Landry refere-se a este conjunto de imaterialidades colectivas como os recursos culturais urbanos que «(…) incluem o património histórico, industrial e artístico, bem como paisagens e marcos urbanos. Também incluem as tradições locais da vida pública, festivais, rituais ou histórias, (…) comida e cozinha, actividades de lazer, subculturas ou tradições intelectuais».

O processo de patrimonialização ou de identificação e valorização do património cultural imaterial urbano permite a uma cidade afirmar e aprofundar a sua identidade, considerar a personalidade ancestral construída pelos seus habitantes através das gerações e fomentar nos seus cidadãos uma ideia de unidade, de continuidade justificada e um sentimento de pertença intrínseco.

Os resultados positivos da existência desta realidade verificam-se nas mais variadas vertentes, nomeadamente na economia da cidade, no seu urbanismo, na sua criatividade e até na própria qualidade de vida dos seus habitantes que, invariavelmente, se sentem melhor no seio de uma sociedade com identidade e mais inclusiva.

O panorama urbano actual de Portugal permite-nos perceber que as cidades que vão ganhando a batalha da afirmação social e económica são aquelas que não são apenas corpo mas que são também alma.

Esta alma manifesta-se muitas vezes num grande momento anual em que toda a cidade festeja e se festeja. Cito alguns exemplos de renome: Lisboa e o Santo António, o Porto e o São João, Tomar e a festa dos Tabuleiros, Viana do Castelo e a Romaria da Agonia, Campo Maior e as festas do Povo, Ponta Delgada e o Santo Cristo, Funchal e a festa das Flores ou o fim-de-ano. Neste campo, são inúmeros os exemplos nacionais e internacionais. Em todos eles, há traços comuns: a imaterialidade que justifica a festa; o sentir e força colectiva que imprime cor e envolvência extensiva a toda a comunidade; o traço marcante de identidade para a própria cidade e o seu retorno social e económico e grande impacto turístico.  

Por via destes argumentos ou somente pela questão urbanística, a aposta na descoberta da imaterialidade urbana colectiva pode constituir-se como um veículo muito significativo para encontrar a alma da cidade e a tal identidade e sentimento de pertença, sem os quais uma cidade é apenas um corpo, ou melhor, um conjunto de edifícios com gente dentro.