Nove princípios para melhores serviços públicos digitais

 

Não é recente a importância que se reconhece ao papel das tecnologias de informação para a resolução de problemas das sociedades.

Um pouco por todo o mundo, Governos, Universidades e Centros de Investigação, empresas e empreendedores dedicam consideráveis esforços na senda de soluções inovadoras capazes de criar impacto e alterar regras de jogo que pareciam dogmaticamente estabelecidas.

Em particular, nos países em vias de desenvolvimento, a oportunidade da utilização das TIC é tida como um aspecto importante que merece atenção e investimento. 

Tendências recentes, como a possibilidade de milhões de pessoas terem hoje acesso a uma conta bancária através do seu telemóvel graças à abordagem inovadora das operadoras de telecomunicações, manifestam o valioso potencial destas tecnologias com promessas de enormes oportunidades no campo social, mas também no do empreendedorismo e dos negócios.

Ainda assim, muito deste investimento é frequentemente desperdiçado em pequenas iniciativas, desenvolvidas à distância sem considerar as verdadeiras necessidades, dificuldades e anseios da população. 

Foi neste contexto que diversas organizações internacionais se juntaram para desenvolver um conjunto de princípios basilares para a criação de soluções TIC: os Princípios para Desenvolvimento Digital.

Estes princípios condensam em nove premissas um conjunto relevantíssimo de conhecimentos que deve ser partilhado tanto quanto possível com comunidades do mundo inteiro.

  1. Desenhar com o utilizador
  2. Entender o ecossistema existente
  3. Desenhar para crescer
  4. Contruir algo sustentável
  5. Ser orientado por dados
  6. Utilizar standards abertos, dados abertos, código aberto e inovação aberta
  7. Reutilizar e aperfeiçoar
  8. Abordar questões de privacidade e segurança
  9. Ser colaborativo

1. Desenhar com o utilizador

Os utilizadores devem estar no processo de desenvolvimento de novas soluções desde o primeiro momento. É da análise das suas necessidades e dos seus contributos para possíveis soluções que nascem as ideias mais bem-sucedidas.

Muito boas ideias falham frequentemente. A adopção pelos utilizadores está muito ligada ao seu envolvimento em processos de co-desenho de novas soluções desde o primeiro momento.

2. Entender o ecossistema existente

Antes de começar a desenvolver uma nova solução, é fundamental entender o ecossistema existente. Há respostas a questões muito simples que podem influenciar sobremaneira o processo de desenvolvimento.

Que soluções foram já testadas anteriormente? Porque falharam? Que tipo de actores existem no contexto? Quais as suas motivações para contribuir ou bloquear a nossa solução?

Este processo de entendimento do ecossistema evita erros e falhanços comuns em desenvolvimentos que apenas se concentram na obtenção de uma solução tecnológica. Todas as soluções devem ser usadas por humanos e o seu contexto é normalmente um desafio bem mais complexo do que conseguir implementar a parte tecnológica de uma solução.

3. Desenhar para crescer

Há soluções que funcionam bem em pequena escala, mas muito mal quando se pretende aplicá-las num contexto maior. Mesmo que inicialmente não se preveja a utilização em maior escala, a aplicação de boas práticas que permitam o seu crescimento futuro sem afectar o custo de implementação deve ser sempre tida em conta.

Existem sempre imensos sítios com problemas semelhantes aos nossos, porque não pensar em contribuir para resolver um problema de mais pessoas do que aquelas que à partida conseguimos antecipar?

4. Contruir algo sustentável

A sustentabilidade é um ponto fundamental de qualquer processo de mudança. Se queremos construir algo que tenha impacto, é necessário que possa crescer e manter-se sustentavelmente no futuro.

Existem diferentes tipos de barreiras à sustentabilidade:

  • a barreira do custo, quando se constrói algo que exige demasiado investimento para funcionar normalmente após o financiamento inicial estar esgotado;
  • a barreira da complexidade, que inibe a possibilidade de a solução ser operada no futuro pelos seus utilizadores-finais;
  • a barreira do fornecedor, quando a solução desenvolvida está nas mãos de um único fornecedor que passa a poder controlar e ditar o destino daquilo que foi desenvolvido.

Estes são apenas alguns dos pontos a ter em conta em relação à sustentabilidade, muitos outros haverão relacionados a cada contexto. O arranjo institucional da solução (quem opera, quem manda, quem paga) é um dos pontos-chave para uma ferramenta sustentável.

5. Ser orientado por dados

A medição de um novo produto, processo ou serviço, deve ser sempre possível através de dados que nos permitem extrapolar o seu sucesso.

Ser orientado por dados é optar uma postura transparente e igualitária para avaliar o trabalho realizado e considerar futuros desenvolvimentos.

6. Utilizar standards abertos, dados abertos, código aberto e inovação aberta

O mundo das TIC é um mundo altamente conectado onde nunca ninguém está sozinho. Numa sociedade do conhecimento onde o trabalho colaborativo desenvolveu já soluções de imensa complexidade no domínio das TI, devemos sempre considerar ter uma postura de abertura.

As quatro palavras-chave deste princípio são muito importantes: standards abertos, dados abertos, código aberto e inovação aberta.

  • Standards abertos: a possibilidade da criação de interfaces que permitam à nossa solução interagir com outras que estão já desenvolvidas ou serão desenvolvidas no futuro, pela nossa equipa ou por outros.
  • Dados abertos: em consonância com o princípio anterior, se somos orientados por dados devemos, numa postura de transparência, abrir os dados da nossa solução para que outros possam reutilizar e deles possam tirar proveito. (sobre dados abertos, ver o post da semana passada)
  • Código aberto: antes de começar a desenvolver uma solução, importa tentar entender se existe já algo desenvolvido que responda às nossas necessidades. Na escolha de uma solução código aberto diferentes factores devem ser tidos em conta: a orientação tecnológica do projecto, a dinâmica e a dimensão da comunidade, a facilidade de adaptação ao nosso contexto.
  • Inovação aberta: a inovação é um processo colaborativo e assim deve ser assumida. O desenvolvimento de serviços inovadores em colaboração com outros leva a melhores resultados, mais sustentáveis e com menor margem de erro.

7. Reutilizar e aperfeiçoar

Uma boa solução de código aberto é frequentemente um óptimo ponto de partida para aquilo que queremos fazer. O software código aberto é normalmente livre para quaisquer alterações por parte do utilizador, bem como para a introdução de melhorias à solução já existente.

Esta abordagem permite poupar imensos recursos. Para quê reinventar a roda sempre que se inicia um novo projecto?

Da mesma maneira, importa perceber que aquilo que estamos a desenvolver pode ter interesse para outras pessoas. Aperfeiçoando e partilhando aquilo que melhoramos estamos a contribuir para o desenvolvimento de outros projectos no futuro.

8. Abordar questões de privacidade e segurança

As Tecnologias Digitais têm uma capacidade extraordinária e quase infinita de recolha de informação, assim como da sua análise e pesquisa futura.

Cada vez mais, a privacidade e a segurança dos dados dos utilizadores é um assunto muito sério e que exige uma responsabilidade colectiva. Abordar as questões de privacidade e segurança desde o primeiro momento e de forma transparente é criar algo de forma consciente e responsável.

9. Ser colaborativo

Colaborar, colaborar, colaborar. Partilhar, partilhar, partilhar. Comunicar, comunicar, comunicar.

Qualquer uma destas três palavras podia ser escrita cem vezes como ligação para muitos projectos de tecnologias de informação por esse mundo fora. Ser colaborativo implica envolver as pessoas nos processos de decisão, ouvir a sua opinião, discutir, analisar e co-criar.

Por outro lado, a colaboração entre projectos, entre entidades e até mesmo dentro de entidades, é muitas vezes inexistente. Este último princípio constrói-se tendo por base a premissa fundamental de que a partilha do conhecimento é um pressuposto para uma sociedade mais desenvolvida e mais próspera.

Para que serve tudo isto?

Tenho tido oportunidade de, nos últimos anos, desenvolver serviços públicos digitais com base nestes princípios.  

Alguns não concordarão com as ideias deste artigo. Outros haverá que as considerem mero bom senso e nada de inovador. Do que tenho tido oportunidade de ver, tanto em países em vias em desenvolvimento como em países desenvolvidos como Portugal, havia muito a ganhar com a criação de políticas públicas claras capazes de impregnar estas regras de bom-senso na implementação de projectos de TI para a criação de serviços públicos digitais bem-sucedidos.